Podemos imaginar que a descrição científica da natureza é um bolo, com fatias de sabor variado |
DURANTE SÉCULOS, cientistas sonharam em obter uma descrição completa do mundo, tentando fazer da ciência um símbolo maior do brilhantismo humano. Não seria fantástico se fôssemos capazes de prever o futuro em detalhe? A ciência como oráculo... muito irônico.
Essa seria a opressora realidade do cosmorrelógio, no qual leis estritamente determinísticas descreveriam todos os mecanismos da natureza. Esse sonho não passava de ilusão, e o projeto falhou.
Primeiro porque essa meta reducionista, para a qual tudo na natureza pode ser descrito a partir do comportamento das menores entidades de matéria, depende do acúmulo de muita informação (como as posições e velocidades de todas as partículas que compõem o Cosmo).
Mesmo os seus defensores mais ferrenhos, como o francês Laplace e outros, sabiam que, na prática, nunca daria certo. Medidas tomam tempo. E, quando você termina de medir algo aqui, o que está acolá já mudou de lugar! Mas, mesmo assim, acreditava-se num conjunto de leis que poderia ser usado para construir a realidade física do mais elementar ao mais complexo, a partir das entidades fundamentais da matéria e de suas interações.
Além disso, a física quântica, que descreve átomos, proíbe o conhecimento da posição e da velocidade de uma partícula com precisão arbitrária, impondo um limite absoluto ao que podemos conhecer.
Hoje, imagino (e espero) que poucos físicos acreditem que o projeto reducionista possa funcionar começando das partículas elementares e indo às moléculas, aos furacões ou à explicação de como os neurônios podem criar nosso senso de identidade.
Deixar de lado esta meta reducionista cria oportunidades únicas. Como escreveu o prêmio Nobel Philip Anderson, em 1972: "A cada nível de complexidade aparecem novas propriedades. Cada estágio requer leis e conceitos novos".
Podemos imaginar nossa descrição científica da natureza como um bolo de muitas camadas, cada qual com o seu sabor, ingredientes e feita segundo instruções diferentes. O bolo pode ser um só, mas não é possível cozinhá-lo começando com prótons e elétrons. (Da mesma maneira, uma sinfonia é muito mais do que um agrupamento de notas.)
Será que existem camadas-limite, indo da menor à maior? Ou será que a realidade é um "bolo de Babel", sem limites? Se considerarmos o que sabemos hoje, podemos dizer que existe uma distância mínima, onde o conceito de espaço deixa de fazer sentido: é o chamado "comprimento de Planck", igual a 1,6 x 10-35 metro (um próton tem aproximadamente 10-15 metro).
Em direção ao cósmico, a coisa é mais incerta. Podemos dizer que a porção observável do Universo, isto é, o volume de espaço onde podemos coletar informação usando formas diversas de radiação (como luz, ultravioleta e infravermelho), é de 46 bilhões de anos-luz.
Se o Universo continua além dessa fronteira- e não há razão para achar que não continue- não podemos sabê-lo. E se não podemos ver o que está além, esta é, de fato, a camada-limite do "muito grande". Portanto, nosso bolo da realidade não se estende ao infinitamente pequeno ou grande. Ao menos, essa é a receita atual.
Marcelo
ResponderExcluirDescobri agora seu blog e serei um sagaz leitor,pois sou aficcionado pela fisica teorica.
Fiquei intrigado aqui com uma questão,onde voce diz: "Podemos dizer que a porção observável do Universo,.... é de 46 bilhões de anos-luz".
Se a idade do universo = 13,7 bilhoes.... (Olhando para o início do tempo).
Poderia me ensinar o porque desta diferença de 30 bi.?
Grato,
George KOtouc
Caro anônimo
ResponderExcluirRepare que ele disse "volume" do Universo é de 46 bilhões de anos luz. (volume são 3 dimensões de espaço).
Quanto à idade de 13,7 bilhões de anos, ele está se referindo a apenas uma dimensão temporal.
Espero que tenha ajudado.
E pensas que por mais que se descubra ainda terá muito pra ser descoberto!
ResponderExcluirE pensas que por mais que se descubra ainda terá muito pra ser descoberto!
ResponderExcluirA beleza está na descoberta e não necessariamente num fim.
ResponderExcluirComo Gleiser cita em seu "Universo Imperfeito", a física é uma ciência das aproximações sucessivas.
Mas isso não quer dizer que aja espaço para crendices.
A física é uma ciência das aproximações sucessivas..., dentro do espaço físico, ou seja, seu objeto de estudo, apesar de vasto, é limitado, com um volume de 46 bilhões de anos luz.
ResponderExcluirPara quem quiser aproveitar a própria existência para conhecer a ontologia da realidade em que vive, deverá, em algum momento de sua vida, largar mão de suas crendices calcadas no materialismo, caso contrário seu conhecimento estará limitado a aproximações sucessivas.
Estamos limitados a aproximações, e o pior, à incerteza eterna sobre a realidade, já que ela é uma interpretação.
ResponderExcluirAchar que alguma forma de religião ou crendice pode ajudar a se auto-conhecer é apenas um sintoma de esquizofrenia.
Mais do que preces, análise é mais recomendado para o auto-conhecimemento, o que ainda assim é limitado.
Achar que se manter sobre as bases das novas ciências é materialismo é de uma simploriedade patética.
O Fábio propõe que trafegar apenas por conceitos estritamente materiais torna-se um redutor ante às possibilidades do pensamento, e como tal limita os resultados e o próprio conhecimento.
ResponderExcluirContudo, isto não é incentivo para uma postura "crente" no sentido religioso-pejorativo comumente conhecido; aquele que é convicto em sua crença e descarta o questionamento.
Abstrair e permitir-se caminhar em várias direções com o intuito de conhecer, aprender e crescer é possível a qualquer um, seja para o homem de fé como para o ateu. Só não é possível para que aquele que aborta, em si mesmo, o seu próprio potencial "descobridor", e limita o seu universo à sua própria visão, seja para o homem de fé, seja para o ateu.