É possível ser uma pessoa espiritualizada e cética |
Começo hoje com a definição de mito dada por Joseph Campbell, uma das grandes autoridades mundiais em mitologia: "Mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre". Sabemos que mitos são narrativas criadas para explicar algo, para justificar alguma coisa. Na prática, não importa se o mito é verdadeiro ou falso; o que importa é sua eficiência.
Por exemplo, o mito da supremacia ariana propagado por Hitler teve consequências trágicas para milhões de judeus, ciganos e outros. O mito que funciona tem alto poder de sedução, apelando para medos e fraquezas, oferecendo soluções, prometendo desenlaces alternativos aos dramas que nos afligem diariamente.
A fé num determinado mito reflete a paixão com que a pessoa se apega a ele. No Rio, quem acredita em Nossa Senhora de Fátima sobe ajoelhado centenas de degraus em direção à igreja da santa e chega ao topo com os joelhos sangrando, mas com um sorriso estampado no rosto. As peregrinações religiosas movimentam bilhões de pessoas por todo o mundo. É tolo desprezar essa força com o sarcasmo do cético. Querendo trazer a ciência para um número maior de pessoas, eu me questiono muito sobre isso.
Como escrevi antes neste espaço, os que creem veem o avanço científico com uma ambiguidade surpreendente: de um lado, condenam a ciência como sendo materialista, cética e destruidora da fé das pessoas. "Ah, esses cientistas são uns chatos, não acreditam em Deus, duendes, ETs, nada!"
De outro, tomam antibióticos, voam em aviões, usam seus celulares e GPSs e assistem às suas TVs digitais. Existe uma descontinuidade gritante entre os usos da ciência e de suas aplicações tecnológicas e a percepção de suas implicações culturais e mesmo religiosas. Como resolver esse dilema?
A solução não é simples. Decretar guerra à fé, como andam fazendo alguns ateus mais radicais, como Richard Dawkin, não me parece uma estratégia viável. Pelo contrário, vejo essa polarização como um péssimo instrumento diplomático. Como Dawkins corretamente afirmou, os extremistas religiosos nunca mudarão de opinião, enquanto um cientista, diante de evidência convincente, é forçado eticamente a fazê-lo. Talvez essa seja a distinção mais essencial entre ciência e religião: o ver para crer da ciência versus o crer para ver da religião.
Aplicando esse critério à existência de entidades sobrenaturais, fica claro que o ateísmo é radical demais; melhor optar pelo agnosticismo, que duvida, mas não nega categoricamente o que não sabe. Carl Sagan famosamente disse que a ausência de evidência não é evidência de ausência. Mesmo que estivesse se referindo à existência de ETs inteligentes, podemos usar o mesmo raciocínio para a existência de divindades: não vejo evidência delas, mas não posso descartar sua existência por completo, por mais que duvide dela. Essa coexistência do existir e do não-existir é incômoda tanto para os céticos quanto para os crentes. Mas talvez seja inevitável.
A ciência caminha por meio do acúmulo de observações e provas concretas, replicáveis por grupos diferentes. A experiência religiosa é individual e subjetiva, mesmo que, às vezes, seja induzida em rituais públicos. Como escreveu o psicólogo americano William James, a verdadeira experiência religiosa é espiritual e não depende de dogmas. Apesar de o natural e o sobrenatural serem irreconciliáveis, é possível ser uma pessoa espiritualizada e cética.
Einstein dizia que a busca pelo conhecimento científico é, em essência, religiosa. Essa religião é bem diferente da dos ortodoxos, mas nos remete ao mesmo lugar, o cosmo de onde viemos, seja lá qual o nome que lhe damos.
ah, acho perfeitamente possivel ser espiritualizado e cético. a lei da gravidade existe e atua neste planeta quer alguém tenha ou não conhecimento disso, acredite ou não.mas não é visivel a olho nu.com todo o respeito que tenho pelo livre pensar e todas as religiões, existem muitas contradições absurdas, como, por exemplo, a pessoa crer em deus como criador de tudo e poluir a natureza, provocar guerras e mortes por motivos religiosos, políticos,econômicos,movidos por ignorância total sobre as leis que regem a vida.loucura total...contradição absurda. e de que adianta investigar de onde viemos e para onde vamos se não estamos conseguindo nem administrar bem a saúde e dignidade de vida neste planeta agora? saber de onde viemos e para onde vamos tem que ser coerente com as nossas atitudes.ciência e religião devem trazer qualidade e dignidade de vida somadas no dia a dia.se auto-flagelar subindo de joelhos sangrando as escadarias da penha e jogar um monte de garrafas pet no caminho...o que é isso?alguém acredita que centenas de pessoas morreram no estado do rio de janeiro depois das fortes chuvas porque deus quis assim?
ResponderExcluirO 'Agnostico' não é só um eufemismo usados por ateus..existem sim pessoas agnosticas e elas são pessoas abertas que podem ou não rezar pra qualquer das nossas senhoras que estão por aí. Isso não importa. O que importa é são pessoas com a mente aberta, observadoras e atentas a todas as descobertas cientificas, sem negar nada e sem se apegar a qualquer ideia em particular. Até o invisivel pode ser considerado natural e os 'ets' apenas moradores de outro planeta. A mistificação de tudo isso é o que faz a diferença. Essa é a minha opinião.
ResponderExcluir"Essa coexistência do existir e do não-existir" é que nos deixa inquietos e nos faz avançar em pesquisas e estudos. Todos sabem disto. O que não podemos é estar em cima do muro pra vermos p/ qual lado o pêndulo penderá para crermos mais, e também, não dá para sermos crentes demais nem agnósticos demais. Lembremos sempre do “equilíbrio”. A crença em algo que nos dá vazão para crer que este algo pode tb não existir. Nossas vidas são sempre movidas por escolhas, mas não podemos fazer uma simples escolha entre crer ou não crer em Deus e saber o valor real da religião (sem nomes) em nossas vidas e tb sabermos a importância dos avanços científicos tb para nós, pq neste quesito crença não é o mesmo que escolher ir ou não ir, ser ou não ser, é simplesmente uma questão de “saber”; pois crer que o alvo em questão é importante, ou que existe difere em “saber” que “é” que “existe” e pronto. Sim, é uma busca pessoal, pois este “saber” precisa vir de dentro do âmago de cada um. Mas, esta busca mesmo sendo pessoal e isolada, qdo. possível dever ser compartilhada pois vivemos juntos numa busca e o conhecimento e o saber de um ou de alguns poderá ser a resposta e o saber de outros.
ResponderExcluirQto. aos que fazem sacrifícios e promessas para alcançarem milagres, crêem que precisam sofrer para alcançar algo, não podemos questionar esta fé mesmo sabendo ser um tanto radical, seria o mesmo que decretar uma guerra santa, mas um dia chegará em que saberão que o receber não é sinônimo de sofrimento e enquanto estiverem satisfeitos com esta verdade que pensam ser real, nunca chegarão à verdade propriamente dita.
Einstein dizia não ser religioso, mas agia como tal e sabia que algo Superior existia. Afirmo isto baseada num livro que li de sua autoria. Uma boa semana!
Caro Marcelo,
ResponderExcluirTenho acompanhado faz algum tempo seus artigos semanais na Folha de São Paulo e queria, em primeiro lugar, comentar, acerca de seu último artigo, e afirmar que realmente o agnosticismo é a única postura racional àquele que se prende tão somente aos métodos das ciências naturais como fonte do conhecimento. O ateísmo é certamente uma crença ou fé de natureza assemelhada àquela que possui o teísta. Tem fundamento racional, mas não científica - ao menos como entendemos ciência hoje.
E queria parabenizá-lo pelo argumento relativo à dúvida. Curiosamente vai de encontro ao pensamento do então teólogo Joseph Ratzinger, em seu livro Introdução ao Cristianismo, que diz que a dúvida é o ponto de encontro entre o crente e o não crente abertos à verdade
Marcelo,
ResponderExcluirInfelizmente não consigo localizar um interessante artigo recente seu, também na Folha de São Paulo, na qual gostaria de fazer um reparo.
Lá você parecia afirmar que a crença de Isaac Newton em Deus se assemelhava ao daqueles que creem numa espécie de "Deus das lacunas", isto é, que Deus era 'necessário' para Newton explicar aspectos naturais até então inexplicáveis pela ciência.
Isso me parece não fazer justiça a Newton. Na verdade, Newton tinha uma profunda preocupação metafísica. Deus entrava em seu arcabouço metafísico e não físico. O espaço ( e não me recordo agora se também o tempo) era considerado por Newton como "sensorium Dei" enquanto categoria. Basta verificar os debates entre Clarke (como uma espécie de alter ego de Newton) e Leibniz.
Obrigado e parabéns por seus recentes artigos.
A religião existe para explicar algo que a mente humana não é capaz de entender. O homem criou Deus.
ResponderExcluirCatólico, evangélico, agnóstico, ateu, todos se baseiam em crenças. Não acreditar, para mim, é o mesmo que acreditar, é uma crença.
Mesmo que a vida seja explicada ela não terá explicação, pois chegará no limite da lógica e a lógica ou qualquer nome que se de para isso, como já disse, é limitada e não pode ir além do que já está.
Faço parte daquele grupo que fazendo uma analise do mundo que me cerca, lendo, assistindo tv, pesquisando na internet, ouvindo opiniões, analisando o que as religiões dizem, (e que não bate com a realidade), chega opinião que não a como conciliar fé com religião ou espiritualização no sentido sobrenatural com ceticismo.
ResponderExcluirEssa ambigüidade que o Marcelo citou é realmente fascinante de observar no dia a dia.
As pessoas adoram os benefícios da ciência, como por exemplo uma mulher que tem dificuldade de engravidar, a quem ela recorre? a seu médico claro, mas agora pasmen, tem gente que em pleno século 21 acredita que através da fé e oração, pode interferir em fenômenos naturais, como desviar uma tempestade da sua cidade. Me da vontade de dizer: Fique na frente de um tornado e ore para teu deus pra ver o que acontece. Mais aí pode ser que o tornado desvie e a pessoa ainda vai achar que isso é um milagre, ou então a máxima: "não tentarás a teu deus".
Discordo inteiramente de quem diz que o ateu é uma espécie de crente pois ele também crê. Eu creio na gravidade porque eu sei que ela existe, pois se eu pular do telhado da minha casa, vou quebrar as minhas pernas. Existe uma diferença de método de crença aí, e é justamente isso que as pessoas não conseguem entender, que precisamos ter uma comprovação ou ao menos uma idéia racional das coisas para depois crermos nelas. Por isso que não da pra acreditar em Et, não nesses ets que supostamente frequentam o nosso planeta, sem provas não dá, ponto final. O dia que eles aparecerem, beleza, vamos lá da uma aperto de mão nos "verdinhos", admirar sua espantosa tecnologia e tentar xupinhar algo claro.
Existem muitas coisas que não entendemos nesse mundo, mas o que não podemos fazer é sair colocando um selo de sobrenatural nas coisas.
Concordo completamente com comentário do W.Andrei, neste mundo só temos duas opções, crença pela crença, ou crer em fatos, ou pelo menos, tentarmos seguir um estilo de vida baseado na racionalidade, mas infelizmente as pessoas adoram o mistério, o deslumbre com a possibilidade de que não sejamos somente "essa casca vazia" como disse o Mestre Yoda, e com isso adotam uma postura do "estou de mente aberta".
E é aí que entra a contradição das pessoas, pois elas querem estar de mente aberta, mas somente para a superstição, para a razão não, e por que? por que com a visão cientifica ou atéia do mundo, o homem é que é, não existe ideais românticos de vida após a morte, entidades zelando pelo nosso bem estar e coisas do gênero.
Seguir uma vida atéia, cética, não tira o brilho dela, pelo contrário, é maravilhoso olhar para uma tempestade e admirar seu poder, mas ter a consciência que são apenas nuvens, ou acompanhar pela tv as terríveis tragédias que assolam o nosso planeta e baseado no conhecimento adquirido pela nossa sociedade, saber que são apenas fenômenos naturais, pois vivemos na película de um planeta, e que estes fenômenos não são o “aviso do fim dos tempos”, ou seja, tem pessoas que realmente acham que o planeta foi criado especialmente para o homem morar aqui, mesmo que todos os fatos mostrem o contrário, o vulcão da Islândia não ta nem aí pra Europa.
São inumeras as teorias, e os cientistas nunca param de buscar pensar na teoria do Big Bang, e ver que dela surgiram muito mais perguntas que resposta e que algumas teworias aguardam por mais de 40 anos para serem ou não confirmadas é muito interessante. Prefiro crer que assim caminham cientistas e teorias, já ouvi inúmeras vezes que o que move o mundo não são as repostas, mas sim as perguntas e a cada resposta teórica surgem inumeras novas perguntas. Quão grande é o homem e seus mistérios. Quão grande é a criação e seu Criador.
ResponderExcluirOs pesquisadores sempre encontram fortes razões para solapar a velha idéia grega, reciclada por Constantino. Tem toda razão, mas porque não falseá-la, como foi feito com Ptolomeu e Newton? Basta conferir porque Jesus apareceu no mapa apenas 350 anos depois da data apontada ao seu nascimento, e coberto por uma Bíblia escrita em estilo único, de ponta a ponta, flagrante indício de ter apenas um autor, ou. no máximo, a 4 mãos.
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