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domingo, 11 de abril de 2010

Mitos, ciência e religiosidade





É possível ser uma pessoa espiritualizada e cética



Começo hoje com a definição de mito dada por Joseph Campbell, uma das grandes autoridades mundiais em mitologia: "Mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre". Sabemos que mitos são narrativas criadas para explicar algo, para justificar alguma coisa. Na prática, não importa se o mito é verdadeiro ou falso; o que importa é sua eficiência.

Por exemplo, o mito da supremacia ariana propagado por Hitler teve consequências trágicas para milhões de judeus, ciganos e outros. O mito que funciona tem alto poder de sedução, apelando para medos e fraquezas, oferecendo soluções, prometendo desenlaces alternativos aos dramas que nos afligem diariamente.
A fé num determinado mito reflete a paixão com que a pessoa se apega a ele. No Rio, quem acredita em Nossa Senhora de Fátima sobe ajoelhado centenas de degraus em direção à igreja da santa e chega ao topo com os joelhos sangrando, mas com um sorriso estampado no rosto. As peregrinações religiosas movimentam bilhões de pessoas por todo o mundo. É tolo desprezar essa força com o sarcasmo do cético. Querendo trazer a ciência para um número maior de pessoas, eu me questiono muito sobre isso.

Como escrevi antes neste espaço, os que creem veem o avanço científico com uma ambiguidade surpreendente: de um lado, condenam a ciência como sendo materialista, cética e destruidora da fé das pessoas. "Ah, esses cientistas são uns chatos, não acreditam em Deus, duendes, ETs, nada!"

De outro, tomam antibióticos, voam em aviões, usam seus celulares e GPSs e assistem às suas TVs digitais. Existe uma descontinuidade gritante entre os usos da ciência e de suas aplicações tecnológicas e a percepção de suas implicações culturais e mesmo religiosas. Como resolver esse dilema?

A solução não é simples. Decretar guerra à fé, como andam fazendo alguns ateus mais radicais, como Richard Dawkin, não me parece uma estratégia viável. Pelo contrário, vejo essa polarização como um péssimo instrumento diplomático. Como Dawkins corretamente afirmou, os extremistas religiosos nunca mudarão de opinião, enquanto um cientista, diante de evidência convincente, é forçado eticamente a fazê-lo. Talvez essa seja a distinção mais essencial entre ciência e religião: o ver para crer da ciência versus o crer para ver da religião.

Aplicando esse critério à existência de entidades sobrenaturais, fica claro que o ateísmo é radical demais; melhor optar pelo agnosticismo, que duvida, mas não nega categoricamente o que não sabe. Carl Sagan famosamente disse que a ausência de evidência não é evidência de ausência. Mesmo que estivesse se referindo à existência de ETs inteligentes, podemos usar o mesmo raciocínio para a existência de divindades: não vejo evidência delas, mas não posso descartar sua existência por completo, por mais que duvide dela. Essa coexistência do existir e do não-existir é incômoda tanto para os céticos quanto para os crentes. Mas talvez seja inevitável.

A ciência caminha por meio do acúmulo de observações e provas concretas, replicáveis por grupos diferentes. A experiência religiosa é individual e subjetiva, mesmo que, às vezes, seja induzida em rituais públicos. Como escreveu o psicólogo americano William James, a verdadeira experiência religiosa é espiritual e não depende de dogmas. Apesar de o natural e o sobrenatural serem irreconciliáveis, é possível ser uma pessoa espiritualizada e cética.

Einstein dizia que a busca pelo conhecimento científico é, em essência, religiosa. Essa religião é bem diferente da dos ortodoxos, mas nos remete ao mesmo lugar, o cosmo de onde viemos, seja lá qual o nome que lhe damos.

domingo, 28 de março de 2010

Sobre a crença e a ciência




Respeito os que creem. A ciência não tem agenda contra a religião



A pergunta que mais me fazem quando dou palestras, ou mesmo quando me mandam e-mails, é se acredito em Deus. Quando respondo que não acredito, vejo um ar de confusão, às vezes até de medo, no rosto da pessoa: "Mas como o senhor consegue dormir à noite?".

Não há nada de estranho em perguntar a um cientista sobre suas crenças. Afinal, ao seguirmos a velha rixa entre a ciência e a religião, vemos que, à medida em que a ciência foi progredindo, foi também ameaçando a presença de Deus no mundo. Mesmo o grande Newton via um papel essencial para Deus na natureza: Ele interferia para manter o cosmo em xeque, de modo que os planetas não desenvolvessem instabilidades e acabassem todos amontoados no centro, junto ao Sol. Porém, logo ficou claro que esse Deus era desnecessário, que a natureza podia cuidar de si mesma. O Deus que interferia no mundo transformou-se no Deus criador: após criar o mundo, deixou-o à mercê de suas leis.

Mas, nesse caso, o que seria de Deus? Se essa tendência continuasse, a ciência tornaria Deus desnecessário?

Foi dessa tensão que surgiu a crença de que a agenda da ciência é roubar Deus das pessoas. Um número espantoso de pessoas acha mesmo que esse é o objetivo dos cientistas, acabar com a crença de todo mundo. Os livros de Richard Dawkins e outros cientistas ateus militantes, que acusam os que creem de viverem num estado de delírio permanente, não ajudam em nada a situação. Mas será isso mesmo o que a ciência pretende? Será que esses fundamentalistas ateus falam por todos os cientistas?

De modo algum. Eu conheço muitos cientistas religiosos, que não veem qualquer conflito entre a sua ciência e a sua crença. Para eles, quanto mais entendem o Universo, mais admiram a obra do seu Deus. (São vários.) Mesmo que essa não seja a minha posição, respeito os que creem. A ciência não tem uma agenda contra a religião. Ela se propõe simplesmente a interpretar a natureza, expandindo nosso conhecimento do mundo natural. Sua missão é aliviar o sofrimento humano, aumentando o conforto das pessoas, desenvolvendo técnicas de produção avançadas, ajudando no combate às doenças. O "resto", a bagagem humana que acompanha e inspira o conhecimento (e que às vezes o atravanca), não vem da ciência como corpo de saber, mas dos homens e das mulheres que se dedicam ao seu estudo.

É óbvio que, como já afirmava Einstein, crer num Deus que interfere nos afazeres humanos é incompatível com a visão da ciência de que a natureza procede de acordo com leis que, bem ou mal, podemos compreender. O problema se torna sério quando a religião se propõe a explicar fenômenos naturais; dizer que o mundo tem menos de 7.000 anos ou que somos descendentes diretos de Adão e Eva, que, por sua vez, foram criados por Deus, é equivalente a viver no século 16 ou antes disso. A insistência em negar os avanços e as descobertas da ciência é, francamente, inaceitável. Por exemplo, um número enorme de pessoas se recusa a aceitar que o homem pousou na Lua. Quando ouço isso, fico horrorizado. Esse feito, como tantos outros, deveria ser celebrado como um dos marcos da civilização, motivo de orgulho para todos nós.

Podemos dizer que existem dois tipos de pessoa: os naturalistas e os sobrenaturalistas. Os sobrenaturalistas veem forças ocultas por trás dos afazeres dos homens, vivendo escravizados por medos apocalípticos e crenças inexplicáveis. Os naturalistas aceitam que nunca teremos todas as respostas.

Mas, em vez de temer o desconhecido, abraçam essa ignorância como um desafio e não uma prisão. É por isso que eu durmo bem à noite.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Um novo começo



A mensagem de Obama é clara: o futuro pertence aos que pensam com as mentes livres


A cabo de assistir ao discurso de posse de Barack Obama, o 44º presidente dos EUA. Impossível não se comover com a sua eloquência, com a força das suas palavras. O contraste com George W.Bush, sentado em seu banco com a face infantilmente contorcida em inúmeras expressões, chegava a ser doloroso. Este é o despertar de uma nova era. É o que todo mundo diz por aqui. Na minha universidade, as aulas foram interrompidas e milhares de alunos se reuniram em auditórios e salas de aula para assistir à cerimônia.

Em mais de 20 anos nos Estados Unidos, nunca presenciei algo assim. Nunca vi tantas pessoas, de todas as idades, de todas as raças e religiões, tão empolgadas. (Fora a Copa do Mundo no Brasil, claro.) Dizem que a expectativa, a esperança, é semelhante -talvez maior- do que a que o povo americano sentiu quando John F. Kennedy iniciou seu governo, em 1961. Tinha apenas dois anos e não me lembro.

Mas lembro o choro de minha mãe quando o jovem presidente foi assassinado, em novembro de 1963. A segurança na cerimônia de Obama envolvia 30 mil soldados e policiais; uma força maior do que a que opera no Afeganistão. O mundo continua enfermo. O que encontramos nas palavras de Obama? Felizmente, muita coisa boa.

Claro está que a proposta dele é de virar o país ao avesso; endireitar o que oito anos do governo Bush entortaram. A começar pela inclusão religiosa. Nos EUA, é mais fácil eleger um presidente negro ou judeu do que um ateu. Mesmo assim, Obama chegou até a incluir os não-crentes ("non-believers") no seu discurso, ao lado dos cristãos e os muçulmanos, os judeus e os hindus. Isso não tem precedentes aqui, um país onde os ritos religiosos são parte integral dos ritos políticos, como ficou claro com a escolha de Rick Warren como pastor da cerimônia.

Logo ele, que afirma que a submissão a Deus é fundamental aos homens. Nada mais contrário ao que diz Obama, que quer construir uma nação onde a igualdade é a força chave, onde a educação e a saúde estão ao alcance de todos, e a ciência -aí sim foi que gostei mais ainda- tem o papel principal na luta contra alguns dos desafios mais sérios que enfrentaremos nas próximas décadas: o aquecimento global, a crise econômica, a dependência dos combustíveis fósseis. "Dados científicos, os resultados da pesquisa de profissionais competentes, não se prestam à manipulação política que serve a grupos de interesse", disse ele alguns meses atrás.

Essa é uma menção às vergonhosas distorções feitas em relatórios da Agência de Proteção Ambiental (EPA) e nos resultados de pesquisas sobre o aquecimento global e suas consequências. Podemos esperar mudanças radicais na política ambiental americana. O novo governo promete investir pesado em fontes alternativas de energia. Podemos esperar também um aumento substancial no fomento à pesquisa básica e aplicada.

Espero que nisso o governo brasileiro siga o exemplo, e aumente também o orçamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). A mensagem de Obama é clara: o futuro pertence aos que pensam com as mentes livres e mantêm os corações abertos. Talvez esse seja mesmo um novo começo. Apesar de temeroso, mantenho-me otimista.

O mundo precisa agir. PS: Quando esta coluna já estava sendo fechada, fiquei sabendo do absurdo corte de 18% no Orçamento de 2009 para ciência e tecnologia. Exatamente o oposto do que nosso país deveria estar fazendo. O Congresso precisa entender que a ciência é um dos maiores bens nacionais.