Não há dúvida, a mecânica quântica tem mistérios. Mas é bom lembrar que ela é uma construção da mente humana |
VIVEMOS NUM mundo quântico.
Talvez não seja óbvio, mas sob nossa experiência do real -contínua e ordenada- existe uma outra realidade, que obedece a regras bem diferentes. A questão é, então, como conectar as duas, isto é, como começar falando de coisas que sequer são "coisas" -no sentido de que não têm extensão espacial, como uma cadeira ou um carro- e chegar em cadeiras e carros.
Costumo usar a imagem da "praia vista à distância" para ilustrar a transição da realidade quântica até nosso dia a dia: de longe, a praia parece contínua. Mas de perto, vemos sua descontinuidade, a granularidade da areia. A imagem funciona até pegarmos um grão de areia. Não vemos sua essência quântica, porque cada grão é composto de trilhões de bilhões de átomos. Com esses números, um grão é um objeto "comum", ou "clássico".
Portanto, não enxergamos o que ocorre na essência da realidade física. Temos apenas nossos experimentos, e eles nos dão uma imagem incompleta do que ocorre.
A mecânica quântica (MQ) revolve em torno do Princípio de Incerteza (PI). Na prática, o PI impõe uma limitação fundamental no quanto podemos saber sobre as partículas que compõem o mundo. Isso não significa que a MQ é imprecisa; pelo contrário, é a teoria mais precisa que há, explicando resultados de experimentos ao nível atômico e sendo responsável pela tecnologia digital que define a sociedade moderna.
O problema com a MQ não é com o que sabemos sobre ela, mas com o que não sabemos. E, como muitos fenômenos quânticos desafiam nossa intuição, há uma certa tensão entre os físicos a respeito da sua interpretação. A MQ estabelece uma relação entre o observador e o que é observado que não existe no dia a dia. Uma mesa é uma mesa, independentemente de olharmos para ela. No mundo quântico, não podemos afirmar que um elétron existe até que um detector interaja com ele e determine sua energia ou posição.
Como definimos a realidade pelo que existe, a MQ parece determinar que o artefato que detecta é responsável por definir a realidade. E como ele é construído por nós, é a mente humana que determina a realidade.
Vemos aqui duas consequências disso. Primeiro, que a mente passa a ocupar uma posição central na concepção do real. Segundo, como o que medimos vem em termos de informação adquirida, informação passa a ser o arcabouço do que chamamos de realidade. Vários cientistas, sérios e menos sérios, veem aqui uma espécie de teleologia: se existimos num cosmo que foi capaz de gerar a mente humana, talvez o cosmo tenha por objetivo criar essas mentes: em outras palavras, o cosmo vira uma espécie de deus!
Temos que tomar muito cuidado com esse tipo de consideração. Primeiro, porque em praticamente toda a sua existência (13,7 bilhões de anos), não havia qualquer mente no cosmo. E, mesmo sem elas, as coisas progrediram perfeitamente. Segundo, porque a vida, especialmente a inteligente, é rara. Terceiro, porque a informação decorre do uso da razão para decodificar as propriedades da matéria. Atribuir a ela uma existência anterior à matéria, a meu ver, não faz sentido. Não há dúvida de que a MQ tem os seus mistérios.
Mas é bom lembrar que ela é uma construção da mente humana.
Olá Marcelo. No seu artigo da Folha de S. Paulo, "A essência da realidade física", uma coisa me chamou a atenção, quando você diz que no dia a dia "uma mesa é apenas uma mesa, independentemente de olharmos para ela". Mas, a mesa de um observador nunca será a mesma mesa de outro observador, pois o conceito de mesa envolvido, a sua utilidade (onde eu como, ou onde eu estudo) nunca será a mesma para duas pessoas diferentes. Mesmo que aparentemente seja igual, em 5 minutos de conversa já é possível identificar diferenças marcantes da "sua" mesa e da "minha".
ResponderExcluirTalvez não haja diferença nenhuma entre a física de medições (da Mecânica quântica) e a física do dia-a-dia.
Gostei de você ter levantado essas questões. Agradeço
Gabriel
Alan, sempre acho ótimo os questionamentos levantados por Gleiser, em especial, a maneira como escreve.
ResponderExcluirEle sempre coloca incertezas e subjetividades mas, para o bom leitor, fecha a porta para o misticismo.
Valeu, "O Coisa"
ResponderExcluirkant já dizia:
Avalia-se a inteligência de um indivíduo pela quantidade de incertezas que ele é capaz de suportar." (Immanuel Kant)
Boa noite Marcelo!
ResponderExcluirLi seu livro "Criação Imperfeita" e gostei muito. Já tinha visto o documentário do Discovery e um é complemento do outro quanto às informações sobre o universo. Gostaria de fazer umas perguntas a você:
1) Existem monopólos magnéticos?
2) O você acha da teoria de João Magueijo que diz que a velocidade da luz nem sempre foi uma constante, como afirmou Einstein?
Att,
Márcio
Eng. Eletricista
Esse é um assunto extremamente complexo e que gera longas conversas!
ResponderExcluirÀ sua frase "em praticamente toda a sua existência (13,7 bilhões de anos), não havia qualquer mente no cosmo. E, mesmo sem elas, as coisas progrediram perfeitamente." , eu acrescentaria:
ResponderExcluirNem sempre tão perfeitas.
Essa eterna possibilidade da imperfeição pode tirar um pouco da nossa anciedade em conhcer "A essência da realidade física".
Abraços.
Por que definir arbitrariamente que a vida no universo é rara quando existe a tendencia cada vez mais forte de se descobrir que ela pode surgir em lugares que nunca poderia se e imaginar que ela seria capaz de surgir?
ResponderExcluirPor que é tão dificil admitir uma teoria em que a vida, (não como a conhecemos) pode se extinguir e ressurgir constantemente de formas que não somos capazes de imaginar?
Por que insistem que é necssário um Deus pra que tudo isso aconteça?
Deus é só uma palavra, ao que parece, neste momento, estão dando a a ela dentro da ciência, uma atenção maior do que ela realmente merece. Na verdade precisa ser totalmente desconsiderada. Quando o termo 'Deus' E ciência são colocados sycessivamente num mesmo artigo que se quer ciêntifico, Não tenha dúvida que surgirão muitos problemas para a ciência principalmente.