Estamos aqui não porque o Universo seja propício à existência, mas apesar de sua hostilidade a nós |
NO DOMINGO PASSADO, escrevi sobre as recentes afirmações de Stephen Hawking. Para ele, a ciência demonstrou que Deus não é necessário para explicar a criação. Outro argumento que Hawking usou é que o Universo é especialmente propício à vida, em particular à vida humana. Mais uma vez vejo a necessidade de apresentar um ponto de vista contrário. Tudo o que sabemos sobre a evolução da vida na Terra aponta para a raridade dos seres vivos complexos. Estamos aqui não porque o Universo é propício à vida, mas apesar de sua hostilidade.
Note que, ao falarmos sobre vida, temos de distinguir entre vida primitiva (seres unicelulares) e vida complexa. Vida simples, bactérias de vários tipos e formas, deve mesmo ser abundante no Cosmos.
Na história da Terra -o único exemplo de vida que conhecemos-, os primeiros seres vivos surgiram tão logo foi possível. A Terra nasceu há 4,5 bilhões de anos e sua superfície se solidificou em torno de 3,9 bilhões de anos atrás. Os primeiros sinais de vida datam de pelo menos 3,5 bilhões de anos, e alguns cientistas acham que talvez possam ter 3,8 bilhões de anos. De qualquer modo, bastaram algumas centenas de milhões de anos de calma para a vida surgir. Não é muito em escalas de tempo planetárias.
Esses primeiros seres vivos, os procariontes, reinaram durante 2 bilhões de anos. Só então surgiram os eucariontes, também unicelulares, mas mais sofisticados. Os primeiros seres multicelulares (esponjas) só foram surgir em torno de 700 milhões de anos atrás.
Ou seja, por cerca de 3,5 bilhões de anos, só existiam seres unicelulares no nosso planeta. O que aprendemos com esses estudos é que a vida coevoluiu com a Terra. O oxigênio que existe hoje na atmosfera foi formado quando os procariontes descobriram a fotossíntese em torno de 2 bilhões de anos atrás. Estamos aqui porque oxigenaram o ar.
Devemos lembrar que seres multicelulares são mais frágeis, precisando de condições estáveis por longos períodos. Não é só ter água e a química correta. O planeta precisa ter uma órbita estável e temperaturas que não variem muito. Só temos as quatro estações e temperaturas estáveis porque nossa Lua é pesada.
Sua massa estabiliza a inclinação do eixo terrestre (a Terra é um pião inclinado de 23,5), permitindo a existência de água líquida durante longos períodos. Sem a Lua, a vida complexa seria muito difícil.
A Terra tem também dois "cobertores" que a protegem contra a radiação letal que vem do espaço: o seu campo magnético e a camada de ozônio. Viver perto de uma estrela não é moleza. Precisamos de seu calor, mas ele vem com muitas outras coisas nada favoráveis à vida.
Quem afirma que o Universo é propício à vida complexa deve dar uma passeada pelos outros planetas e luas do nosso Sistema Solar.
Ademais, o pulo para a vida multicelular inteligente também foi um acidente dos grandes. A vida não tem um plano que a leva à inteligência. A vida quer apenas estar bem adaptada ao seu ambiente. Os dinossauros existiram por 150 milhões de anos sem construir rádios ou aviões. Portanto, mesmo que exista vida fora da Terra, a vida inteligente será muito rara. Devemos celebrar nossa existência por sua raridade, e não por ser ordinária.
O acaso é apenas uma teoria que ainda não conhecemos.
ResponderExcluirO acaso é apenas uma teoria que ainda não conhecemos.
ResponderExcluirA raridade e complexidade da vida nos levam a pensar sobre o quanto ela é preciosa.Mas esse pensamento pode ser facilmente usado para algo mais, algo com um "design".Peter Ward e Donald Brownlee já discutiram sobre tal argumentação no livro "Rare Earth", que me parece bastante lúcida e coerente.Parabéns Marcelo, pela coerência!
ResponderExcluirOlá,
ResponderExcluirA evolução traz destruição?
O assunto de como viemos parar aqui ou se somos obra daqui mesmo é muito complexo, dizer que foi Deus quem criou tudo é também dizer que não evoluímos nada, dizer que foi o acaso, é muita evolução para o meu gosto, ou dizer que aqui é propicio à vida, é não ter trabalhar duro o dia e a noite inteira, digo apanas que ainda iremos saber a verdade um dia, se a espécie humana sobreviver as ideias destrutivas que a evolução traz, quanto mais temos conhecimento menos a raça humana se multiplica, é só vê os números que foram divulgado no Brasil, e acho que é no mundo todo, que as família estão encolhendo, e o fator principal para que isso ocorra é que as pessoas estão mais informadas, em plena evolução, os habitantes desse planeta, seja vida simples ou complexa estão evoluído, e isso não é uma boa notícia, qual será o preço da evolução? Espero que não seja a destruição.
Quando li o que o Hawking disse sobre não haver espaço pra existência de Deus comentei com meu professor de filosofia e ele disse: como se Deus ocupasse espaço...
ResponderExcluirOntem eu fiquei pensando no ano novo judaico, no perdão e nas maneiras de contar o tempo: Será que há algo parado no universo? O DNA do tempo guada a memória de tudo. À medida que nos reconhecemos no outro o futuro olha para trás e nos envia fios de possíveis. Acho que é a capacidade de sabermo-nos finitos que nos torna infinitos e multiplos. E o grande poeta que é Deus encena no grande anfiteatro do mundo uma escrita inventiva, na justeza que permite a cada homem expressar o tamanho que tem seu coração.
Estou curiosa para ler seu livro.
Abraço,
Flávia
o universo nem gosta nem desgosta de nós. ele tem é um total desprezo mesmo.
ResponderExcluirde toda a improbabilidade da vida, somos uns privilegiados e temos q aproveitar nossa única passagem.
o universo nem gosta nem desgosta de nós. ele tem é um total desprezo mesmo.
ResponderExcluirde toda a improbabilidade da vida, somos uns privilegiados e temos q aproveitar nossa única passagem.
Deus é o universo experimentando a si próprio.
ResponderExcluirEngraçado tentarmos especular sobre a possibilidade de vida inteligente ao londo do Cosmos, se nem ao menos sabemos mensurar sua extensão, que cisma em se expandir aumentando vertiginosamente o libido humano na busca da verdade. Tal verdade seria hipotéticamente a chave para a descrição da vida e de seus mecanismos, que parecem se adaptar a todo momento a novos e infinitos movimentos rumo ao desconhecido.
discordo. nao acho q a fé é necessária para responder questão alguma, pq a fé é achismo, é crença na ausência de evidências. prefiro simplesmente nao considerar a existência de um deus enquanto nao houverem evidências para sua existência.
ResponderExcluirPrezado Sr. Marcelo, bom dia!
ResponderExcluirEstou lendo seu livro "A Criação Imperfeita". Ao mesmo tempo tenho utilizado o Capitulo X de Poeira nas Estrelas em minhas aulas para alunos de Pós-Gradução.
Aproveito para informa-lhe que estarei estabelenco um link para essa sua página em meu blog: http://emdefesadacomida.blogspot.com.
Agradeço-lhe o texto, que em poucas linhas contribui com um diálogo racional sobre a vida em nosso planeta.
Agradecido,
Alfredo Benatto
Sanitarista
Curitiba/PR
Embora um passeio pelo sistema solar seja um tanto quanto enfadonho para quem busca por sinais de vida, ignorar o tamanho do cosmos também me parece leviano. A Equação de Drake ao meu ver permanece valida.
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