domingo, 24 de janeiro de 2010

Ciência, religião e o Haiti

A realidade é crua: a natureza não precisa de nós


É impossível encontrar palavras para descrever a tragédia no Haiti. De longe, lemos depoimentos e jornais. Assistimos às notícias na TV, chocados em ver uma população inteira em profunda agonia, num estado de total fragilidade e de caos. Crianças perdidas de seus pais (ou órfãs) e milhares de pessoas morrendo de fome e sede.
 
Gangues de jovens -mais de 50% da população tem menos de 18 anos- atacando aqueles que tem algo para comer ou tentando roubar tudo o que podem. Nenhuma água, gasolina ou qualquer forma de comunicação. A vida forçada a parar por completo, um apocalipse real, provocado por forças muito além do nosso controle.

Mesmo que a ciência possa explicar as causas dos terremotos e das erupções vulcânicas, permanece incapaz de prever quando irão ocorrer. Saber a localização das falhas geológicas onde os terremotos ocorrem claramente não é suficiente. Modelos e explicações permanecem especulativos. Por exemplo, existe uma proposta que terremotos tendam a ocorrer quando há um aumento na força das marés, como em torno da época de um eclipse. De fato, um eclipse anular ocorreu três dias após o terremoto do Haiti. Infelizmente, previsões dessa natureza raramente são precisas o suficiente para salvar vidas.

A Terra é um planeta ativo, borbulhando em suas entranhas, com uma crosta formada de placas que tendem a mudar de posição em busca de um maior equilíbrio quando a pressão subterrânea aumenta. Obviamente, fazem isso sem dar a menor importância para a destruição que causam. Cataclismos naturais, como o do Haiti ou o tsunami de 2004 no oceano Índico, que causou em torno de 230 mil mortes, expõe a crua realidade da vida na Terra: precisamos da natureza, mas a natureza não precisa de nós. No nosso desespero, e sem poder prever quando cataclismos dessa natureza irão ocorrer, atribuímos tais eventos a "atos divinos". Nisso, não somos muito diferentes de nossos antepassados, que associavam divindades a quase todos os aspectos e fenômenos do mundo natural.

Talvez a transição do panteísmo ao monoteísmo, sobretudo no ocidente, tenha removido Deus do contato mais direto com os homens, relegando-o a uma presença etérea, distante da realidade do dia-a-dia. Mas muitos continuam atribuindo o que não entendem a "atos divinos", seguindo a receita tradicional do "deus das lacunas": a fé começa onde a ciência termina.

Talvez faça mais sentido associar esses cataclismos a uma indiferença divina. É horripilante testemunhar a crueldade -e até mesmo a estupidez- de certos homens de fé nesses momentos difíceis. Um exemplo é do pastor evangélico americano Pat Robertson, que recentemente atribuiu o terremoto a uma punição divina contra o povo haitiano, que supostamente assinara um pacto com o diabo para conseguir obter sua independência dos franceses. Nossos antepassados nas cavernas teriam concordado.

Dentro do contexto desta coluna, a tragédia provocada pelo tremor no Haiti nos ensina ao menos duas coisas. Primeiro, que a ciência tem limites, e que existe muito sobre o mundo que ainda não sabemos. Porém, não é por isso que devemos atribuir o que não sabemos explicar a atos sobrenaturais. Nossa ignorância deve abrir caminho ao conhecimento e não à superstição. Segundo, aprendemos que a vida -e aqui estamos nos incluindo- é extremamente frágil e deve ser protegida a todo custo. Nosso planeta, apesar de demonstrar fúria ocasionalmente, é nossa única morada viável. Devemos tratá-lo com o respeito que merece.

4 comentários:

  1. Somos iguais ao gorgulho no feijão.
    Jose Flavio

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  2. parabéns pelo blog, estou lendo tudo.

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  3. Sr. Gleiser, estou lendo seu livro e alguns questionamentos surgiram em minha cabeça. Sei que sou totalmente leigo, mas a curiosidade acabou vencendo a vergonha, então lá vai:

    - Foi dito que a luz não fica em repouso (Maxwell), mas também foi dito que a gravidade interfere na mesma. Nesse caso, o que ocorreria se uma lanterna fosse apontada para cima em um planeta cuja aceleração da gravidade seja igual à velocidade da luz?

    - Se na velocidade da luz o tempo tende a parar, o que ocorre com um corpo em total ausência de movimento (ok, sei que o universo está em expansão então esse corpo deve ser meio difícil de conceber, mas é um experimento mental..rs)?

    Muito obrigado pela atenção,

    Victor Nunes

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  4. Você é uma pessoa iluminada pela luz da razão. Li vários dos seus livros.
    Você é daquelas raras pessoas que todos gostaríamos de ter por AMIGO, para gastarmos muitos minutos por dia jogando conversa fora, sem compromisso formal, mas repleta de luz, fraternidade humana e conhecimentos.
    Você é dez.... PARABENS
    Sou um dos seus leitores assíduos e fico honrado só de poder escrever em seu blog.

    Arlindo Tavares
    http://filociencialivre.blogspot.com/

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