domingo, 24 de julho de 2005

Psiquiatria bioeletrônica

MARCELO GLEISER
COLUNISTA DA FOLHA

Em seu romance de ficção científica "A Pedra Filosofal", o inglês Colin Wilson relata a história de um neurocientista que faz uma descoberta fenomenal: a aliança da eletrônica com as ciências cognitivas pode transformar cérebros normais em supercérebros, com poderes inimagináveis. O cientista implanta eletrodos em certas regiões da córtex cerebral frontal, a área da inteligência, estimulando-as com pequenas correntes elétricas. Os resultados são surpreendentes: ele passa a ter uma capacidade racional infinitamente superior à normal, incluindo poderes paranormais e conexões com o passado e o futuro. O supercérebro pode viajar no tempo sem sair do lugar.


Se uma nova terapia pode aliviar sofrimento, deve ser desenvolvida. Mas o temor das fantasias ficcionais existe


Recentemente, o filme "O Candidato da Manchúria" revisita o tema, adaptando-o ao clima de intriga política e corrupção corporativa que existe hoje nos EUA. No filme, soldados são usados como cobaias em um experimento, onde eletrodos são implantados nos seus cérebros com o intuito de controlar as suas memórias e desejos. Não só os soldados se lembram apenas daquilo que os seus controladores permitem, mas suas memórias podem ser fabricadas por um processo de hipnose induzido pelos eletrodos. Ou seja, a tecnologia pode ser usada maquiavelicamente para criar autômatos humanos. Inclusive o futuro presidente dos EUA.

Passando da ficção à ciência, a tecnologia de implante de eletrodos no cérebro está sendo desenvolvida em vários países, incluindo Canadá, Alemanha, EUA e Bélgica. O intuito dos neurocirurgiões não é criar autômatos mas aliviar o sofrimento causado por várias doenças psiquiátricas, como a obsessão compulsiva, o mal de Parkinson e a depressão profunda.

A técnica, chamada de Estimulação Cerebral Profunda (ECP), é surpreendentemente semelhante àquela das obras ficcionais. Microeletrodos com a espessura de um cabelo humano e seis milímetros de comprimento são inseridos em regiões profundas do cérebro, que variam com a doença a ser combatida. O processo de inserção é complicado, já que o cirurgião deve evitar a perfuração de artérias e se certificar de que o local certo foi atingido. Os eletrodos estimulam eletricamente o cérebro, interferindo com os canais de comunicação entre os neurônios.

Como vários distúrbios psiquiátricos são associados a bloqueios ou disfunções neuronais, a idéia é que os impulsos elétricos podem restituir às regiões danificadas um nível razoável de funcionamento. A técnica está em desenvolvimento, mas os testes preliminares são animadores.
Em torno de 30 mil operações desse tipo foram já feitas no mundo, especialmente no tratamento do mal de Parkinson. Em muitos, o estímulo elétrico alivia imediatamente a paralisia muscular associada com a doença. Um paciente do doutor Bart Nuttin, da Bélgica, que sofria de transtorno obsessivo-compulsivo, mudou de comportamento quase instantaneamente. A técnica aponta para uma nova era da psiquiatria e psicologia, onde medicamentos e terapia são apenas parte do tratamento.

Questões éticas são inevitáveis. Para os que sofrem de distúrbios psiquiátricos potencialmente tratáveis por ECP, não existe dúvida: se uma nova terapia pode aliviar o sofrimento de pacientes, deve ser desenvolvida o mais rapidamente possível. Mas o temor das fantasias ficcionais existe. Talvez um dia seja possível manipular o núcleo de memórias de alguém, ou até comportamentos, com intenções criminosas. Mas proibir ou ignorar um avanço capaz de aliviar o sofrimento de milhões é crime muito maior.

segunda-feira, 18 de julho de 2005

O planeta Gleiser



Astrofísico, escritor, roteirista: uma viagem pelo universo íntimo do único cientista pop do Brasil

ELIANE BRUM

MARCELO GLEISER

Dados pessoais
Nasceu no Rio, tem 46 anos, três filhos. Vive nos Estados Unidos há 23 anos

Carreira
Professor de Física do Dartmouth College, nos EUA, publicou cinco livros, ganhou vários prêmios, entre eles dois Jabutis, o José Reis de Divulgação Científica e o Presidential Faculty Felows, da Casa Branca

Últimas realizações
Um romance sobre a vida do cientista Johann Kepler e dois roteiros de cinema



Fotos: arq. pessoal
O PEQUENO GLEISER
Caçula temporão, depois de dois garotos, os pais, Izaac e Haluza, torciam que fosse uma menina. Na foto, com 1 ano

Se houve um início, o dele foi a morte. Marcelo Gleiser perdeu a mãe, Haluza, aos 6 anos, em ''circunstâncias trágicas''. No escuro desde então, quis se tornar ''o primeiro judeu vampiro da História''. Com 10 anos, pegava um ônibus em Copacabana para se abrigar do sol carioca entre as largas paredes da Biblioteca Nacional. O pequeno Gleiser não conhecia outro atalho para a Transilvânia que não fosse o dos livros. A biblioteca era o castelo do menino. ''Queria entrar num plano em que minha mãe existisse.'' Dentro de uma mala preta, que escondia embaixo da cama, progredia sua primeira investigação científica: pilhas de anotações sobre Drácula e a imortalidade. ''Tinha medo de que meu pai descobrisse e pensasse que eu fosse louco.'' A infância foi para ele uma longa jornada noite adentro.

A aurora só viria bem mais tarde e outras perdas depois. ''Esse começo é a pedra filosofal da minha vida'', diz. ''Sou produto dessa perda. Quando se perde algo tão importante, você passa o resto da vida criando por causa dessa destruição. É como uma compensação. Quando era adolescente, percebi que tinha duas opções: ou me tornava uma pessoa mórbida ou tentava criar a partir da perda. Fui até o fundo do buraco para perceber que a resposta não estava lá. A resposta não estava em descobrir a vida depois da morte, mas a vida que estava acontecendo aqui e agora. Então me entendi.''

O cientista que virou pop está há mais de 1 bilhão de segundos de seu big bang particular. Aos 46 anos, transformar-se em vampiro foi a única façanha que Marcelo Gleiser não conseguiu. É o tipo que parece ter conquistado tudo. Tornar-se um cientista de expressão internacional já seria proeza suficiente para uma vida. Em 1994, Gleiser era exatamente isso. Pesquisador e professor de Física e Astronomia do Dartmouth College, uma das mais prestigiadas universidades americanas, suas descobertas sobre o cosmos foram premiadas pela Casa Branca.

FORMATURA
Aos 11 anos, recebendo o diploma da 5ª série das mãos do pai

Desde a primeira aula de seu curso em Dartmouth, batizado de Física para Poetas, Gleiser conseguiu arrebatar uma multidão de estudantes das áreas mais variadas. O cientista que nunca encontrou consolo na religião compartilhava com seus alunos - como hoje o faz com seus leitores - a descoberta com a qual dissipou suas trevas mais íntimas. ''A busca científica é uma entrega ao mistério maiúsculo, é essencialmente espiritual'', diz. ''Nessa procura, que você faz às cegas, apalpando o desconhecido, você está inventando o que significa ser você. Somos todos feitos de estrelas. Todo o carbono, o manganês, o cálcio que tem em seu corpo vieram de uma supernova que explodiu perto da nebulosa solar há 5 bilhões de anos. Quando você se coloca como um ser cósmico, a perda se transforma em algo mais aceitável porque é a lei do Universo. Quando você destrói alguma coisa, outra é criada.''

Gleiser criou muito. Dez anos depois do primeiro prêmio, um nada para o Universo, ele se expandiu. Tanto que se dá ao luxo de mudar de área, uma ousadia para poucos na Ciência: vai se dedicar à Astrobiologia - o estudo da vida na Terra e em outros planetas. Isso depois de escrever dois livros de divulgação científica e ganhar dois Jabutis - o principal troféu da literatura brasileira. Acabou de lançar o Micro Macro, coletânea de suas colunas na Folha de S.Paulo. Prepara-se para publicar o primeiro romance, 100 mil palavras sobre a vida de Johann Kepler (1571-1630), o medidor dos céus. Quem leu, diz que ele ficará mais famoso do que já é.


A geografia de Gleiser não ficou circunscrita à literatura. Uma peça do grupo Arte Ciência, inspirada no primeiro best-seller (A Dança do Universo), estreou no Festival de Curitiba, fez temporada em Portugal e estará nos palcos de São Paulo em agosto. Em maio de 2006 vai estrear nos cinemas O Maior Amor do Mundo, de Cacá Diegues. O roteiro foi escrito pelo cineasta com a colaboração do cientista. Conta a história de um astrofísico que volta ao Brasil - as coincidências, jura ele, acabam aí. No papel, José Wilker. ''Em meu filme anterior, Deus É Brasileiro, o Marcelo já tinha colaborado comigo, esclarecendo dúvidas científicas sobre a criação do mundo'', conta Diegues. ''Ele é um cientista moderno, preocupado com o homem no centro de sua ciência. Tem compaixão, imaginação e humor.'' Outro roteiro, em parceria com o americano David Glass, circula por Hollywood. Esse é um filme de ficção científica de US$ 130 milhões em que a Terra é ameaçada por tempestades solares, bem ao gosto cataclísmico dos americanos - com a diferença, sublinha Gleiser, que tem ''a Física correta''.

Com essa capacidade de propagação, esperava-se que, por uma espécie de lei física das compensações, Gleiser fosse corcunda. Ele é loiro, tem olhos azuis, 1,79 metro, 68 quilos. Mantém o físico de atleta: em 1975 foi campeão brasileiro de vôlei. Seu levantador era ninguém menos que Bernardinho, o técnico da seleção de ouro do vôlei masculino. ''Desde menino ele sempre foi tão lindo que tirava o fôlego das pessoas'', conta o irmão mais velho, Luiz Gleiser, diretor de núcleo da TV Globo. ''Por isso, está acostumado a ter sempre muita gente olhando para ele. Gosta de aparecer.''

PAIZÃO Gleiser, com a filha Tali, de 9 anos (à dir.), e uma amiguinha, em fevereiro

Diante da platéia, Gleiser discorre sobre buracos negros e supercordas de um jeito que todos entendem. Os fãs ficam fascinados, orbitam ao redor dele com idades e profissões as mais variadas - de office-boys a socialites. ''Nos livros dele parece que o Universo se abre'', resume a brasiliense Aline Guimarães, de 22 anos. Sem poder viajar para São Paulo no fim de junho para prestigiar a última aparição de Gleiser no Brasil, Aline despachou a tia para representá-la. ''Ele ajudou a encontrar meu caminho. Vou trocar a Psicologia pela Física. Como o Universo, estou em expansão!''

Gleiser vive hoje em Hanover, no Estado de New Hampshire. Sua casa se esparrama em uma floresta emoldurada por montanhas. O rio passa quase na porta. Semanas atrás ele cortava grama - tarefa que detesta - quando Jô Soares ligou querendo dirimir algumas dúvidas sobre a relatividade. Caetano Veloso é outro de seus fãs famosos: conta que se inspirou na obra de Gleiser para compor ''Livros''.

Dentro da paisagem de calendário, Gleiser faz alpinismo, passeia de caiaque e pesca trutas - mas as devolve vivas à agua, embora um tanto machucadas. ''Quando ele era pequeno, se equipava e saía todo compenetrado para pescar'', conta o irmão Luiz. ''Só pegava uns peixinhos. Ficava vendo o céu e cismando.'' Gleiser brinca que fica ''pensando no que a truta está pensando''. Pensa tanto na truta que atualmente estuda - seriamente - o que seria o cúmulo do politicamente correto: pincelar com iodo a garganta dos peixes para que não tenham uma infecção.

CENÁRIO PERFEITO
A vista de sua casa no meio da floresta, em Hanover.

Gleiser pode ganhar até US$ 10 mil por palestra, mas faz de graça para quem não pode pagar. Divide a mesa não só com astros da Ciência, mas também com superstars como a cantora Laurie Anderson. Entre seus mentores estão o médico e escritor cult Oliver Sacks, que costuma recebê-lo de chinelo e pijamas em seu apartamento de Nova York. ''Gleiser possui uma mente larga o suficiente para abarcar tanto os mitos primordiais da criação como os últimos avanços da cosmologia'', elogia Sacks. ''Seus livros são maravilhosos.''

Outro amigo é o prêmio Nobel de Química de 1981, Roald Hoffmann. ''Gleiser é a estrela mais brilhante de uma pequena constelação que consegue escrever numa língua que todos entendem'', derrama-se Hoffmann. ''O que faz com que se destaque é sua disposição de se engajar na condição humana. Ele nos conta não apenas sobre os engenhosos modos com que tentamos entender o mistério que nos cerca, mas também a nós mesmos.'' Hoffmann e Gleiser, aliás, desfilaram pela Unidos da Tijuca em 2004, vestidos de Santos Dumont. Gleiser não samba, mas assegura que se ''mexe'' bastante.

Viaja pelo mundo em cruzeiros de caçadores de eclipses. É trabalho

O cientista vive com a segunda mulher, Kari, uma bela psicóloga. Os três filhos do primeiro casamento, com uma agente imobiliária, são Andrew, de 16 anos, Eric, de 12, e Tali, de 9. Passam uma parte do tempo com a mãe, outra com o pai. Gleiser sente-se só. ''Quero voltar ao Brasil assim que minha filha caçula for à universidade'', conta. ''Sinto falta de sentar num bar com um amigo e largar a alma na mesa. Nos Estados Unidos convido as pessoas para ir lá em casa. Elas vão e parecem se divertir. Mas depois ninguém me chama. Fico pensando: será que fiz alguma coisa errada? Não quero envelhecer assim.''

Gleiser adora cozinhar, especialmente pratos tailandeses. E sabe tudo sobre vinhos. Os gostos cinematográficos passeiam de Ingmar Bergman e Andrei Tarkovski a Steven Spielberg. Os literários viajam dos contos de Poe e da poesia de Fernando Pessoa aos contemporâneos José Saramago e Salman Rushdie. Prefere música erudita, em cujas sinfonias migrou de Mahler para Brahms, mudança que atribui a uma certa calmaria da maturidade.

FAMÍLIA
Com a mulher, Kari, e o filho Eric, de 12 anos

Com a matemática só se reconciliou na universidade, gostava mesmo era de tocar violão. Até hoje improvisa. Só não foi músico porque o pai, o dentista Izaac, garantiu que morreria de fome. ''Essa idéia de que existe ritmo em tudo na natureza já ressonava na minha cabeça de forma inconsciente. Uma certa dança das coisas.'' Para falar sobre a dança do Universo, Gleiser costuma embarcar em cruzeiros marítimos pelos mares do mundo em companhia de uma espécie singular de turistas: os caçadores de eclipses. Pagam em torno de US$ 1.500 para que ele esteja lá. Num deles foi de Zanzibar a Madagáscar, em outro navegou pelo Mar Negro. Aproveita para fazer mergulho. Para relaxar dessa vida, ele pratica ioga.

Esse Gleiser solar data do final da adolescência. Por volta dos 20 anos, ele decidiu se deitar no divã. Procurou um gigante, Hélio Pelegrino. O psicanalista escutou sua precoce trajetória de perdas e o despachou para a rua, dizendo mais ou menos o seguinte: ''Você não vai ganhar nada com a psicanálise. O mais importante na vida é a pró-cura. Você procura através da Ciência''. Os amigos de Gleiser ficaram revoltados: ''Pô, o cara te deu alta na entrevista!''.

Marcelo Gleiser procura até hoje.




Medindo a alma de Kepler
Marcelo Gleiser fala sobre seu primeiro romance, ainda inédito

Escrita primeiro em inglês, a biografia de Johann Kepler consumiu quase três anos da vida de Marcelo Gleiser. Será lançada pela Cia. das Letras em 2006. O título - Skybound - ainda não tem tradução em português.

Maurilo Clareto/ÉPOCA

ÉPOCA - Como foi escrever um romance?
Marcelo Gleiser -
Foi a coisa mais difícil que eu fiz em minha vida. Sou fascinado por Kepler, que criou a ciência dele como se fosse um apóstolo. Dizia que a geometria é a linguagem que criamos para entender a mente divina. Era um cara torturado, que só encontrava paz nas esferas. Sua mãe quase foi queimada como bruxa, ele viveu no tempo da Guerra dos 30 Anos entre católicos e protestantes. Esse livro é uma metáfora para os dias de hoje. É um espelho porque o mundo está novamente polarizado por guerras religiosas. Mas é mais do que isso, porque conto a partir de duas linhas temporais, a do próprio Kepler e a de seu mentor, Michael Mastlin. Ninguém o conhece. Esse é o lance. Esse livro é o Amadeus da Ciência.

ÉPOCA - Você se refere ao Amadeus de Peter Shaffer, transformado depois em filme por Milos Forman, sobre a relação entre Mozart e Antonio Salieri?
Gleiser -
A diferença é que o Salieri não era professor do Mozart, como o Mastlin era. O Mastlin se desesperava porque era um bom astrônomo, mas nunca faria o que o Kepler fez. O livro é também essa angústia da mediocridade, de você ser criativo o suficiente para perceber a genialidade do outro.

ÉPOCA - O que isso tem de você?
Gleiser -
Eu já me senti burro e gênio. Já tive alunos brilhantes e alunos burros. Já fui considerado brilhante e burro por meus professores. Esse tema é universal. O novo contra o velho. Dedico esse livro a meus mentores vivos e mortos.

ÉPOCA - O que é ficção e o que não é?
Gleiser -
Todos os fatos do livro aconteceram. É um romance biográfico. Segui os passos do Kepler por três semanas: Alemanha, Áustria, Praga. Sentei à mesa em que ele sentava, li o livro que ele estava lendo. Tenho a correspondência trocada entre Kepler e Mastlin. Li toneladas de coisas. Tentei encarnar a vida dele. Reescrevi três vezes.

ÉPOCA - Foi difícil?
Gleiser -
Nunca chorei escrevendo um livro de não-ficção. Neste chorei. É verdade o que os escritores falam, de que os personagens dominam a gente. Eles me puxavam pela mão. Estavam vivos dentro de mim. Então, quando passavam por um momento difícil ou catártico, eu chorava. Eu me deprimi muito quando o livro acabou. Entendi por que algumas mulheres se deprimem depois do parto. Na gravidez aquele filho é seu, está dentro de você. De repente sai e está lá fora, é uma outra pessoa. Eu me sinto assim.

ÉPOCA - Todo esse caminho, e agora esse romance, ajudou-o a lidar com a morte?
Gleiser -
Não. Tenho medo de morrer. Que eu saiba, é o fim.

O planeta Gleiser

O planeta Gleiser

Astrofísico, escritor, roteirista: uma viagem pelo universo íntimo do único cientista pop do Brasil

ELIANE BRUM

» Confira a íntegra da entrevista com o cientista Marcelo Gleiser

MARCELO GLEISER

Dados pessoais
Nasceu no Rio, tem 46 anos, três filhos. Vive nos Estados Unidos há 23 anos

Carreira
Professor de Física do Dartmouth College, nos EUA, publicou cinco livros, ganhou vários prêmios, entre eles dois Jabutis, o José Reis de Divulgação Científica e o Presidential Faculty Felows, da Casa Branca

Últimas realizações
Um romance sobre a vida do cientista Johann Kepler e dois roteiros de cinema

Montagem sobre fotos de Maurilo Clareto/ÉPOCA e reprodução


Fotos: arq. pessoal
O PEQUENO GLEISER
Caçula temporão, depois de dois garotos, os pais, Izaac e Haluza, torciam que fosse uma menina. Na foto, com 1 ano

Se houve um início, o dele foi a morte. Marcelo Gleiser perdeu a mãe, Haluza, aos 6 anos, em ''circunstâncias trágicas''. No escuro desde então, quis se tornar ''o primeiro judeu vampiro da História''. Com 10 anos, pegava um ônibus em Copacabana para se abrigar do sol carioca entre as largas paredes da Biblioteca Nacional. O pequeno Gleiser não conhecia outro atalho para a Transilvânia que não fosse o dos livros. A biblioteca era o castelo do menino. ''Queria entrar num plano em que minha mãe existisse.'' Dentro de uma mala preta, que escondia embaixo da cama, progredia sua primeira investigação científica: pilhas de anotações sobre Drácula e a imortalidade. ''Tinha medo de que meu pai descobrisse e pensasse que eu fosse louco.'' A infância foi para ele uma longa jornada noite adentro.

A aurora só viria bem mais tarde e outras perdas depois. ''Esse começo é a pedra filosofal da minha vida'', diz. ''Sou produto dessa perda. Quando se perde algo tão importante, você passa o resto da vida criando por causa dessa destruição. É como uma compensação. Quando era adolescente, percebi que tinha duas opções: ou me tornava uma pessoa mórbida ou tentava criar a partir da perda. Fui até o fundo do buraco para perceber que a resposta não estava lá. A resposta não estava em descobrir a vida depois da morte, mas a vida que estava acontecendo aqui e agora. Então me entendi.''

O cientista que virou pop está há mais de 1 bilhão de segundos de seu big bang particular. Aos 46 anos, transformar-se em vampiro foi a única façanha que Marcelo Gleiser não conseguiu. É o tipo que parece ter conquistado tudo. Tornar-se um cientista de expressão internacional já seria proeza suficiente para uma vida. Em 1994, Gleiser era exatamente isso. Pesquisador e professor de Física e Astronomia do Dartmouth College, uma das mais prestigiadas universidades americanas, suas descobertas sobre o cosmos foram premiadas pela Casa Branca.

FORMATURA
Aos 11 anos, recebendo o diploma da 5ª série das mãos do pai

Desde a primeira aula de seu curso em Dartmouth, batizado de Física para Poetas, Gleiser conseguiu arrebatar uma multidão de estudantes das áreas mais variadas. O cientista que nunca encontrou consolo na religião compartilhava com seus alunos - como hoje o faz com seus leitores - a descoberta com a qual dissipou suas trevas mais íntimas. ''A busca científica é uma entrega ao mistério maiúsculo, é essencialmente espiritual'', diz. ''Nessa procura, que você faz às cegas, apalpando o desconhecido, você está inventando o que significa ser você. Somos todos feitos de estrelas. Todo o carbono, o manganês, o cálcio que tem em seu corpo vieram de uma supernova que explodiu perto da nebulosa solar há 5 bilhões de anos. Quando você se coloca como um ser cósmico, a perda se transforma em algo mais aceitável porque é a lei do Universo. Quando você destrói alguma coisa, outra é criada.''

Gleiser criou muito. Dez anos depois do primeiro prêmio, um nada para o Universo, ele se expandiu. Tanto que se dá ao luxo de mudar de área, uma ousadia para poucos na Ciência: vai se dedicar à Astrobiologia - o estudo da vida na Terra e em outros planetas. Isso depois de escrever dois livros de divulgação científica e ganhar dois Jabutis - o principal troféu da literatura brasileira. Acabou de lançar o Micro Macro, coletânea de suas colunas na Folha de S.Paulo. Prepara-se para publicar o primeiro romance, 100 mil palavras sobre a vida de Johann Kepler (1571-1630), o medidor dos céus. Quem leu, diz que ele ficará mais famoso do que já é.

Ele vive numa casa na floresta. O rio passa quase na porta

A geografia de Gleiser não ficou circunscrita à literatura. Uma peça do grupo Arte Ciência, inspirada no primeiro best-seller (A Dança do Universo), estreou no Festival de Curitiba, fez temporada em Portugal e estará nos palcos de São Paulo em agosto. Em maio de 2006 vai estrear nos cinemas O Maior Amor do Mundo, de Cacá Diegues. O roteiro foi escrito pelo cineasta com a colaboração do cientista. Conta a história de um astrofísico que volta ao Brasil - as coincidências, jura ele, acabam aí. No papel, José Wilker. ''Em meu filme anterior, Deus É Brasileiro, o Marcelo já tinha colaborado comigo, esclarecendo dúvidas científicas sobre a criação do mundo'', conta Diegues. ''Ele é um cientista moderno, preocupado com o homem no centro de sua ciência. Tem compaixão, imaginação e humor.'' Outro roteiro, em parceria com o americano David Glass, circula por Hollywood. Esse é um filme de ficção científica de US$ 130 milhões em que a Terra é ameaçada por tempestades solares, bem ao gosto cataclísmico dos americanos - com a diferença, sublinha Gleiser, que tem ''a Física correta''.


Com essa capacidade de propagação, esperava-se que, por uma espécie de lei física das compensações, Gleiser fosse corcunda. Ele é loiro, tem olhos azuis, 1,79 metro, 68 quilos. Mantém o físico de atleta: em 1975 foi campeão brasileiro de vôlei. Seu levantador era ninguém menos que Bernardinho, o técnico da seleção de ouro do vôlei masculino. ''Desde menino ele sempre foi tão lindo que tirava o fôlego das pessoas'', conta o irmão mais velho, Luiz Gleiser, diretor de núcleo da TV Globo. ''Por isso, está acostumado a ter sempre muita gente olhando para ele. Gosta de aparecer.''

PAIZÃO Gleiser, com a filha Tali, de 9 anos (à dir.), e uma amiguinha, em fevereiro

Diante da platéia, Gleiser discorre sobre buracos negros e supercordas de um jeito que todos entendem. Os fãs ficam fascinados, orbitam ao redor dele com idades e profissões as mais variadas - de office-boys a socialites. ''Nos livros dele parece que o Universo se abre'', resume a brasiliense Aline Guimarães, de 22 anos. Sem poder viajar para São Paulo no fim de junho para prestigiar a última aparição de Gleiser no Brasil, Aline despachou a tia para representá-la. ''Ele ajudou a encontrar meu caminho. Vou trocar a Psicologia pela Física. Como o Universo, estou em expansão!''

Gleiser vive hoje em Hanover, no Estado de New Hampshire. Sua casa se esparrama em uma floresta emoldurada por montanhas. O rio passa quase na porta. Semanas atrás ele cortava grama - tarefa que detesta - quando Jô Soares ligou querendo dirimir algumas dúvidas sobre a relatividade. Caetano Veloso é outro de seus fãs famosos: conta que se inspirou na obra de Gleiser para compor ''Livros''.

Dentro da paisagem de calendário, Gleiser faz alpinismo, passeia de caiaque e pesca trutas - mas as devolve vivas à agua, embora um tanto machucadas. ''Quando ele era pequeno, se equipava e saía todo compenetrado para pescar'', conta o irmão Luiz. ''Só pegava uns peixinhos. Ficava vendo o céu e cismando.'' Gleiser brinca que fica ''pensando no que a truta está pensando''. Pensa tanto na truta que atualmente estuda - seriamente - o que seria o cúmulo do politicamente correto: pincelar com iodo a garganta dos peixes para que não tenham uma infecção.

CENÁRIO PERFEITO
A vista de sua casa no meio da floresta, em Hanover.

Gleiser pode ganhar até US$ 10 mil por palestra, mas faz de graça para quem não pode pagar. Divide a mesa não só com astros da Ciência, mas também com superstars como a cantora Laurie Anderson. Entre seus mentores estão o médico e escritor cult Oliver Sacks, que costuma recebê-lo de chinelo e pijamas em seu apartamento de Nova York. ''Gleiser possui uma mente larga o suficiente para abarcar tanto os mitos primordiais da criação como os últimos avanços da cosmologia'', elogia Sacks. ''Seus livros são maravilhosos.''

Outro amigo é o prêmio Nobel de Química de 1981, Roald Hoffmann. ''Gleiser é a estrela mais brilhante de uma pequena constelação que consegue escrever numa língua que todos entendem'', derrama-se Hoffmann. ''O que faz com que se destaque é sua disposição de se engajar na condição humana. Ele nos conta não apenas sobre os engenhosos modos com que tentamos entender o mistério que nos cerca, mas também a nós mesmos.'' Hoffmann e Gleiser, aliás, desfilaram pela Unidos da Tijuca em 2004, vestidos de Santos Dumont. Gleiser não samba, mas assegura que se ''mexe'' bastante.

Viaja pelo mundo em cruzeiros de caçadores de eclipses. É trabalho

O cientista vive com a segunda mulher, Kari, uma bela psicóloga. Os três filhos do primeiro casamento, com uma agente imobiliária, são Andrew, de 16 anos, Eric, de 12, e Tali, de 9. Passam uma parte do tempo com a mãe, outra com o pai. Gleiser sente-se só. ''Quero voltar ao Brasil assim que minha filha caçula for à universidade'', conta. ''Sinto falta de sentar num bar com um amigo e largar a alma na mesa. Nos Estados Unidos convido as pessoas para ir lá em casa. Elas vão e parecem se divertir. Mas depois ninguém me chama. Fico pensando: será que fiz alguma coisa errada? Não quero envelhecer assim.''

Gleiser adora cozinhar, especialmente pratos tailandeses. E sabe tudo sobre vinhos. Os gostos cinematográficos passeiam de Ingmar Bergman e Andrei Tarkovski a Steven Spielberg. Os literários viajam dos contos de Poe e da poesia de Fernando Pessoa aos contemporâneos José Saramago e Salman Rushdie. Prefere música erudita, em cujas sinfonias migrou de Mahler para Brahms, mudança que atribui a uma certa calmaria da maturidade.

FAMÍLIA
Com a mulher, Kari, e o filho Eric, de 12 anos

Com a matemática só se reconciliou na universidade, gostava mesmo era de tocar violão. Até hoje improvisa. Só não foi músico porque o pai, o dentista Izaac, garantiu que morreria de fome. ''Essa idéia de que existe ritmo em tudo na natureza já ressonava na minha cabeça de forma inconsciente. Uma certa dança das coisas.'' Para falar sobre a dança do Universo, Gleiser costuma embarcar em cruzeiros marítimos pelos mares do mundo em companhia de uma espécie singular de turistas: os caçadores de eclipses. Pagam em torno de US$ 1.500 para que ele esteja lá. Num deles foi de Zanzibar a Madagáscar, em outro navegou pelo Mar Negro. Aproveita para fazer mergulho. Para relaxar dessa vida, ele pratica ioga.

Esse Gleiser solar data do final da adolescência. Por volta dos 20 anos, ele decidiu se deitar no divã. Procurou um gigante, Hélio Pelegrino. O psicanalista escutou sua precoce trajetória de perdas e o despachou para a rua, dizendo mais ou menos o seguinte: ''Você não vai ganhar nada com a psicanálise. O mais importante na vida é a pró-cura. Você procura através da Ciência''. Os amigos de Gleiser ficaram revoltados: ''Pô, o cara te deu alta na entrevista!''.

Marcelo Gleiser procura até hoje.

Medindo a alma de Kepler

Marcelo Gleiser fala sobre seu primeiro romance, ainda inédito

Escrita primeiro em inglês, a biografia de Johann Kepler consumiu quase três anos da vida de Marcelo Gleiser. Será lançada pela Cia. das Letras em 2006. O título - Skybound - ainda não tem tradução em português.

Maurilo Clareto/ÉPOCA

ÉPOCA - Como foi escrever um romance?
Marcelo Gleiser -
Foi a coisa mais difícil que eu fiz em minha vida. Sou fascinado por Kepler, que criou a ciência dele como se fosse um apóstolo. Dizia que a geometria é a linguagem que criamos para entender a mente divina. Era um cara torturado, que só encontrava paz nas esferas. Sua mãe quase foi queimada como bruxa, ele viveu no tempo da Guerra dos 30 Anos entre católicos e protestantes. Esse livro é uma metáfora para os dias de hoje. É um espelho porque o mundo está novamente polarizado por guerras religiosas. Mas é mais do que isso, porque conto a partir de duas linhas temporais, a do próprio Kepler e a de seu mentor, Michael Mastlin. Ninguém o conhece. Esse é o lance. Esse livro é o Amadeus da Ciência.

ÉPOCA - Você se refere ao Amadeus de Peter Shaffer, transformado depois em filme por Milos Forman, sobre a relação entre Mozart e Antonio Salieri?
Gleiser -
A diferença é que o Salieri não era professor do Mozart, como o Mastlin era. O Mastlin se desesperava porque era um bom astrônomo, mas nunca faria o que o Kepler fez. O livro é também essa angústia da mediocridade, de você ser criativo o suficiente para perceber a genialidade do outro.

ÉPOCA - O que isso tem de você?
Gleiser -
Eu já me senti burro e gênio. Já tive alunos brilhantes e alunos burros. Já fui considerado brilhante e burro por meus professores. Esse tema é universal. O novo contra o velho. Dedico esse livro a meus mentores vivos e mortos.

ÉPOCA - O que é ficção e o que não é?
Gleiser -
Todos os fatos do livro aconteceram. É um romance biográfico. Segui os passos do Kepler por três semanas: Alemanha, Áustria, Praga. Sentei à mesa em que ele sentava, li o livro que ele estava lendo. Tenho a correspondência trocada entre Kepler e Mastlin. Li toneladas de coisas. Tentei encarnar a vida dele. Reescrevi três vezes.

ÉPOCA - Foi difícil?
Gleiser -
Nunca chorei escrevendo um livro de não-ficção. Neste chorei. É verdade o que os escritores falam, de que os personagens dominam a gente. Eles me puxavam pela mão. Estavam vivos dentro de mim. Então, quando passavam por um momento difícil ou catártico, eu chorava. Eu me deprimi muito quando o livro acabou. Entendi por que algumas mulheres se deprimem depois do parto. Na gravidez aquele filho é seu, está dentro de você. De repente sai e está lá fora, é uma outra pessoa. Eu me sinto assim.

ÉPOCA - Todo esse caminho, e agora esse romance, ajudou-o a lidar com a morte?
Gleiser -
Não. Tenho medo de morrer. Que eu saiba, é o fim.


O planeta Gleiser

domingo, 17 de julho de 2005

A dança do magnetismo terrestre

Em suas notas autobiográficas, Einstein conta como ele ganhou uma bússola de presente de seu pai quando tinha cinco anos: "Ainda me lembro ou acredito que me lembro que essa experiência causou um profundo efeito sobre mim. Algo de fundamental tinha de estar escondido por trás das coisas". A bússola de Einstein, como qualquer outra, apontava para o norte, independentemente de onde estivesse: o metal da agulha tende a se alinhar com o campo magnético da Terra, que corre na direção norte-sul. Essa observação, tão óbvia quanto a volta do Sol a cada dia, que marinheiros e pássaros usam para se orientar em suas viagens, não tem nada de trivial.


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Os pólos magnéticos da Terra passam por inversões: de vez em quando, o que é norte vira sul, e vice-versa
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O fato de a Terra ser um gigantesco ímã se deve a uma confluência de fatores, que só agora começam a ser entendidos. Dentre as descobertas relativamente recentes, a mais chocante é a de que os pólos magnéticos da Terra -quase alinhados com seus pólos geográficos (daí a utilidade da bússola)- passam por inversões: de vez em quando, o que é norte vira sul, e vice-versa. A questão é quando será a próxima.

A última inversão de polaridade ocorreu há 780 mil anos, bem mais tempo do que a média de 250 mil anos. Por alguma razão, os intervalos entre elas vêm encolhendo nos últimos 120 milhões de anos. Sabemos disso porque cada inversão deixa uma assinatura nas rochas magnéticas, suscetíveis a mudanças de orientação do magnetismo terrestre quando aquecidas. Ao resfriarem, mantêm a nova orientação, reproduzindo no tempo a coreografia dos pólos magnéticos. Portanto, a próxima inversão está bem atrasada. Vivemos num período de relativa estabilidade que não durará para sempre. E os primeiros sinais estão já aparecendo.

Dados colhidos por satélites em 1980 e em 1999 mostram que ilhas de polaridade oposta no campo magnético terrestre estão crescendo. Imagine uma bola de futebol com o hemisfério sul pintado de azul e o norte de vermelho. As medidas indicam que dentro da região vermelha existem manchas azuis, e vice-versa, e que essas manchas aumentaram nos últimos 20 anos. A suspeita é que elas sejam os precursores da próxima inversão. O campo magnético terrestre se reduziu em 10% desde 1830.

O centro da Terra é uma esfera de metal líquido, principalmente ferro, com volume seis vezes maior que o da Lua inteira. Devido à enorme pressão exercida pela crosta e pelo manto, 2 milhões de vezes maior no centro do que na superfície, a temperatura lá chega a 5.000 C, comparável à superfície do Sol. Como em uma sopa, bolhas de metal mais quente e, portanto, menos denso, tendem a subir. Na subida, elas se resfriam e voltam a afundar. Esse processo, chamado de convecção, transporta calor do centro da Terra para a região entre o centro e o manto. O metal líquido conduz eletricidade. Quando adicionamos a rotação da Terra, temos uma esfera de metal líquido e borbulhante girando, essencialmente um gerador elétrico, ou dínamo. Em geradores comuns, o que gira são fios metálicos que transportam corrente. Desse movimento nasce um campo magnético que varia ao longo do tempo. A Terra é um gigantesco dínamo. Sua corrente muda ocasionalmente de direção, invertendo a polaridade de seu campo magnético.

Simulações em computadores e experimentos em laboratório têm ajudado no estudo das inversões. Um satélite internacional está tomando novas medidas. Mesmo assim, não podemos ainda prever quando a próxima irá ocorrer. No meio tempo, é bom ficar de olho nos pássaros e nas bússolas

domingo, 10 de julho de 2005

Impacto muito profundo

Às vezes, a realidade surpreende até as ficções mais ousadas. Em 1998, os cinemas foram invadidos por dois filmes, "Armageddon" e "Impacto Profundo", ambos contando como a Terra e seus habitantes foram salvos (por um triz, claro) de uma colisão catastrófica com um bólido vindo dos céus. No caso de "Armageddon", o bólido era um asteróide "do tamanho do Texas"; em "Impacto Profundo", era um cometa com dez quilômetros de diâmetro. As missões de salvamento eram semelhantes: ir ao encontro do bólido, pousar em sua superfície e plantar bombas nucleares em seu interior. No caso de "Impacto Profundo", a estratégia não funciona, e o cometa é divido em duas partes. A menor, com 2,5 quilômetros de diâmetro, cai sobre o Oceano Atlântico, causando uma verdadeira devastação. A maior só não cai porque a tripulação da nave resolve ir a seu encontro e detonar quatro bombas simultaneamente.

No dia 4 de julho, cientistas da Nasa praticamente imitaram o filme: orquestraram a colisão de um projétil do tamanho de uma máquina de lavar contra o cometa Tempel 1, viajando a 30.000 km/h, a 120 milhões de quilômetros da Terra. E, como bônus, tiveram o evento filmado e os dados coletados por uma nave-mãe que acompanhava-os a uma distância de 450 quilômetros. O objetivo da missão, chamada Deep Impact (impacto profundo), não era salvar a Terra, mas analisar a composição interior do cometa, ou seja, do que é feito.

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De agora em diante, sabemos que podemos nos defender, caso a ficção se torne realidade mais uma vez
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Cometas são objetos que circulam nas bordas do Sistema Solar, resquícios de sua origem ocorrida há 4,6 bilhões de anos. Pode-se até dizer que são uma espécie de lixo cósmico, detritos que não foram absorvidos quando Júpiter, Saturno, Urano e Netuno foram formados.

Portanto, o material que compõe cometas é o mesmo que existia quando os planetas nasceram. Ao estudá-los, estamos na verdade olhando para a infância do Sistema Solar e, portanto, da Terra. Isso se torna ainda mais importante devido ao fato de a Terra ter sido bombardeada intensamente por cometas durante seu primeiro bilhão de anos. Segundo teorias atuais, a água que temos aqui foi trazida por esses bólidos; o surgimento da vida só foi possível por causa deles.

Existem dois berçários de cometas. Um, chamado de cinturão de Kuiper, fica um pouco além da órbita de Netuno. O outro, a nuvem de Oort, fica bem mais afastado. Tal como planetas, cometas também giram em torno do Sol. De vez em quando, um deles tem sua órbita desestabilizada e viaja em direção ao coração do Sistema Solar. Caso sua rota coincida com a da Terra, um impacto é inevitável. Ou pelo menos era.

Ainda é cedo para relatar o que foi aprendido com a colisão, ao menos no que diz respeito à composição do cometa. Parece que ele contém água, que o seu interior é bem mais duro do que o seu exterior, provavelmente rochoso. O cometa parece ser totalmente negro e conter crateras, algo que não era previsto nesses objetos. Serão meses, anos, até que os dados sejam devidamente analisados. O que é imediatamente óbvio é que temos a tecnologia necessária para interceptar esses objetos celestes. E de modo ainda mais eficiente (mas não tão emocionante) que nos filmes, sem a intervenção direta de humanos. A missão foi controlada da Terra, desde o projeto inicial e lançamento até os 172 dias de viagem que precederam o impacto. Deixamos de ser apenas alvos de possíveis impactos cataclísmicos. De agora em diante, sabemos que podemos nos defender, caso a ficção se torne realidade mais uma vez.

domingo, 3 de julho de 2005

O paradoxo de Fermi (ou onde estão os extraterrestres?)

Enrico Fermi foi um dos grandes físicos do século 20 e da história. Além de descobrir uma das propriedades mais importantes da matéria (a de que partículas como elétrons, prótons e nêutrons, quando sujeitas a alta pressão, exercem uma força repulsiva que explica a condutividade térmica de metais e a estabilidade de estrelas de nêutrons), foi o pioneiro do estudo de reação nuclear em cadeia, importante para bombas atômicas e reatores nucleares. Além de sua legendária rapidez de cálculo e habilidade em estimar respostas para perguntas aparentemente absurdas ("Quantos afinadores de piano moram em São Paulo?", por exemplo), Fermi gostava de criar paradoxos.


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A evidência de que dispomos diz que estamos sozinhos
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No verão de 1950, ele estava em Los Alamos, onde a bomba nuclear americana foi desenvolvida. A revista "New Yorker" tinha publicado uma charge com um ET roubando todas as latas de lixo de Nova York, aparentemente explicando o seu misterioso sumiço. Durante o almoço, Fermi comentou o assunto. De repente, no meio da conversa, ele exclamou: "Cadê todo mundo?". Seus colegas sabiam que Fermi falava dos ETs. Mesmo que ninguém tenha publicado o que foi dito, podemos estimar o teor da discussão.

Nossa galáxia tem 100 mil anos-luz de diâmetro e uma idade aproximada de 10 bilhões de anos. Vamos supor que a vida só é possível em planetas como a Terra, girando em torno de estrelas como o Sol. Foram necessários 5 bilhões de anos para que a vida inteligente se desenvolvesse aqui na Terra, metade da idade da galáxia, a segunda metade. É razoável supor que estrelas como o Sol tenham surgido também durante os cinco primeiros bilhões de anos de existência da galáxia. Portanto, deveria haver várias civilizações inteligentes, muito mais antigas que a nossa, talvez bilhões de anos mais antigas. Supondo que existam, imaginemos uma "apenas" 1 bilhão de anos mais velha. Se os ETs fossem capazes de viajar à 1/10 da velocidade da luz, em 1 bilhão de anos já poderiam ter atravessado a galáxia mil vezes. Ou seja, essa civilização já poderia ter colonizado a galáxia inteira. Cadê todo mundo? Esse é o paradoxo de Fermi.

Inúmeras soluções foram propostas ao longo dos anos. Não tendo espaço para discuti-las em detalhe (o leitor pode consultar o livro de Stephen Webb, "Where is Everybody?") , menciono os três tipos de solução.

1) "Eles estão aqui". A mais popular para os que acreditam em objetos voadores não-identificados e em intrigas secretas, especialmente as atribuídas ao governo americano. Infelizmente, não existem provas convincentes. Uma idéia curiosa é a de que vivemos em uma zona de proteção criada por ETs. "Eles" não querem que saibamos de sua existência. Esse cenário, embora interessante, não pode ser testado.

2) "Eles existem, mas ainda não se comunicaram conosco". Ou porque os sinais ainda não chegaram, ou porque ainda não somos capazes de decodificá-los, ou porque os alienígenas não querem se comunicar.

3) "Eles não existem". Planetas rochosos com água são raros, a vida é rara e a vida inteligente mais ainda, especialmente no mesmo nível mental e tecnológico alcançado por nós.

A evidência de que dispomos aponta em uma direção: estamos sozinhos. Felizmente, ainda não podemos concluir nada com base nisso. A situação pode mudar a qualquer momento, com um sinal de rádio, uma visita com provas. Mas, se estamos sozinhos, temos a responsabilidade de preservar nosso planeta e a vida nele. Até estarmos prontos para colonizar a galáxia.

quinta-feira, 30 de junho de 2005

Ciência neutra não existe, afirma Gleiser

Físico brasileiro residente nos EUA diz que o Estado tem dificuldades para controlar avanços tecnológicos de forma imparcial

Marlene Bergamo/Folha Imagem
O físico brasileiro Marcelo Gleiser, professor do Dartmouth College (EUA), em sabatina conduzida no Teatro Folha, em São Paulo


SALVADOR NOGUEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

Os cientistas costumam apregoar que a ciência veste o manto da imparcialidade. Mas os meios pelos quais ela é administrada sob a forma de tecnologia apresentam falhas, e a neutralidade científica é quase uma utopia. Essa é a visão do físico Marcelo Gleiser, apresentada em sabatina promovida pela Folha anteontem em São Paulo. Compuseram a mesa Vinicius Torres Freire, secretário de Redação da Folha, Claudio Angelo, editor de Ciência, e Laura Capriglione e Ricardo Bonalume Neto, repórteres especiais.

O cientista de 46 anos, 23 dos quais vividos nos Estados Unidos, onde é professor do Dartmouth College, em Hanover (Estado de New Hampshire), se formou em física pela PUC-RJ e é doutor pelo King's College da Inglaterra. Também já trabalhou no Laboratório Nacional Fermi, em Chicago. Para ele, o controle sobre os avanços da ciência de ponta -transgenia, clonagem, pesquisa de células-tronco- em princípio cabe ao Estado. "Mas o Estado tem de estar desinteressado, e aí a coisa fica mais complicada."

Lembrando que boa parte da pesquisa científica recebe financiamentos do governo, Gleiser apontou que os cientistas nem sempre têm condição de controlar os frutos de seu trabalho. O maior exemplo é o do desenvolvimento da bomba atômica -feito por um grupo de cientistas financiados pelos Estados Unidos no final da Segunda Guerra Mundial. Segundo Gleiser, "[J. Robert] Oppenheimer [líder da equipe que criou a bomba] sugeriu ao governo que fosse feita uma demonstração no Pacífico, para forçar o Japão a se render". "Mas não fizeram isso, por várias razões", complementou. A maior delas era mostrar o poderio bélico americano para a União Soviética.

Em meio às discussões sobre a confiabilidade da ciência, também surgiu a polêmica da manipulação de resultados de pesquisa por companhias farmacêuticas. Sem ignorar as mazelas do sistema, Gleiser destacou a importância do "peer review" nas publicações científicas -o fato de que, para um artigo ser publicado, ele precisa antes ser aprovado por outros especialistas. "Se isso não funcionar, então nós estamos totalmente perdidos", concluiu.

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Gleiser qualificou a importância da inclusão da sociedade nas discussões sobre os rumos da ciência e -sobretudo- das tecnologias dela derivadas. E criticou a falta de destaque que o assunto tem no principal meio de comunicação acessível aos brasileiros, a televisão aberta. "O único programa de TV que há é o "Globo Ciência", que passa no sábado, às sete horas da manhã. Que jovem, depois da madrugada anterior, vai ver? Nenhum. Só se ele varar a noite e pegar o programa de manhã."

Nessa cruzada pela divulgação científica, além de sua coluna no caderno Mais!, Gleiser se dedica a escrever livros. O último, recém-lançado pela Publifolha, é "Micro Macro - Reflexões Sobre o Homem, o Tempo e o Espaço".

O cientista também co-roteiriza um filme sobre um astrofísico brasileiro que vive nos EUA e volta ao país para descobrir suas origens. Jura que o personagem não é autobiográfico.

CRIACIONISMO
Logo no início da sabatina, ele também tocou no tema da recente onda do ensino do criacionismo nas escolas -forte nos EUA, mas presente também no Brasil- como alternativa à teoria da evolução de Charles Darwin.

Ele diz repudiar a mistura entre conceitos religiosos e científicos no ensino e atribui ao menos parte do problema à falta de reação dos cientistas, que muitas vezes se recusam a entrar em conflito com os criacionistas (que defendem a interpretação literal da narrativa bíblica da criação do mundo). "Eles pensam, no momento em que você coloca um criacionista para debater, você está dando uma credibilidade que ele não merece", afirmou Gleiser.

EDUCAÇÃO
Gleiser criticou a maneira como a ciência é ensinada às crianças no Brasil hoje. "Até os 13 anos, as crianças têm um interesse muito grande nessas questões profundas. Por que o céu é azul? Do que uma nuvem é feita? E por aí vai."

Segundo o físico brasileiro, a primeira coisa que um educador deveria fazer para melhorar a educação de ciência é aproveitar esse interesse. "O professor deveria levar as crianças para fora. Usar a natureza como sala de aula." Essa seria a menor maneira de alimentar a curiosidade científica dos jovens e incentivá-los a perseguir futuras carreiras na área. Infelizmente, não costuma ser muito praticada. "Eu me formei, cheguei ao vestibular, sem fazer uma experiência", disse Gleiser.

"A única que eu fiz, e eu tenho certeza que foi a que todo mundo aqui já fez, foi aquela de colocar o feijãozinho no algodão." Os risos na platéia não o deixaram mentir.

Gleiser não considera a falta de recursos financeiros o principal impedimento a esse tipo de prática de ensino. "Tem experiências básicas, que você pode fazer amarrando uma pedra num barbante", afirmou o cientista. "Você não precisa de muitos recursos para fazer isso."
Para atingir as pessoas que já saíram da escola e levar a elas as grandes discussões da ciência moderna, Gleiser atribui o papel maior à divulgação pela mídia.

VIDA EXTRATERRESTRE
Um dos temas que mais evocaram reações e perguntas da platéia foi a possibilidade da existência de vida extraterrestre -área de pesquisa pela qual Gleiser agora anda mais interessado. Ele divide a questão em duas vertentes.

"O Sol é uma estrela trivial. Não há nada especial sobre ele. E há na Via Láctea, a galáxia em que nós vivemos, cerca de 200 bilhões de estrelas. O nosso Universo, no horizonte que podemos observar, tem um raio de 14 bilhões de anos-luz. Só nesse horizonte estima-se que haja centenas de bilhões de galáxias. Então, se você faz as contas, é muito provável que exista vida em outro lugar", afirma o cientista.

"No entanto, eu sei que a pessoa que fez essa pergunta não está pensando nesse tipo de vida. A pergunta é: há vida inteligente fora da Terra?"

A essa questão, segundo Gleiser, ninguém ainda tem elementos suficientes para dar uma resposta precisa. Ele acredita que as evidências científicas hoje sugerem que os passos exigidos para o surgimento de espécies inteligentes e conscientes, como a espécie humana, sejam improváveis demais para que tenham se repetido em algum outro lugar.

O físico carioca encerrou o assunto lembrando uma piada saída dos quadrinhos, mais precisamente dos personagens Calvin e Haroldo. Ironizando a falta de sabedoria dos seres humanos, o personagem dizia que a maior evidência de que havia extraterrestres inteligentes em outras partes do Universo é que eles jamais tinham vindo nos visitar.

TRANSGÊNICOS
Gleiser alertou para os riscos de experimentos pouco controlados ou insuficientes, no que diz respeito à proliferação dos organismos geneticamente modificados.
"Houve um experimento um tanto controverso que mostrou que uma espécie de borboleta -a borboleta-monarca- morria muito mais ao ingerir pólen de milho transgênico do que quando ingeria pólen normal", afirmou.

Mas, com isso, ele não defende a interrupção das pesquisas na área. Muito ao contrário, acha que elas deviam ser incentivadas, justamente para dar o entendimento necessário sobre os riscos que essas criaturas oferecem. "Sempre que você introduz uma coisa diferente no ambiente, há um risco envolvido."

Gleiser reconheceu que, desgraça ambiental por desgraça ambiental, a introdução da agricultura, há milênios, pelos seres humanos já causou um impacto na natureza imensamente maior do que tudo que os transgênicos podem ou poderão causar no futuro previsível. "Mas nós temos de comer, fazer o quê, né?"

Pelo visto, o cientista não está tão confiante nas garantias dadas pelos órgãos governamentais de que os transgênicos são seguros. Quando perguntado, a seco, se ele comia transgênicos, respondeu com cautela: "Ainda não".

DEUS
Sobre uma possível incompatibilidade entre ciência religião, Gleiser, que já escreveu um livro sobre as visões religiosa e científica do apocalipse ("O Fim da Terra e do Céu"), diz: "Eu tenho vários amigos, colegas cientistas, que são religiosos e não vêem conflito algum entre a profissão e a fé deles. Eles vão à igreja, à mesquita, à sinagoga, no sábado, no domingo, e na segunda-feira estão lá, escrevendo as suas equações".

Com isso, se esquivou de dar uma resposta a respeito de sua crença pessoal. Mas não por muito tempo. Nem bem havia terminado de responder quando veio a inevitável pergunta. "Você acredita em Deus?"

Gleiser admitiu que não, considerando a busca dos segredos da natureza pela ciência uma busca suficientemente transcendente. Mas confessou já ter tido muitas oportunidades de celebrar as diferenças entre o racionalismo científicos e crenças de outras esferas do pensamento humano. "Eu já tive uma namorada astróloga", cita, reforçando que não há razão científica para acreditar que a posição dos astros tenha alguma influência sobre o destino e a personalidade dos seres humanos.

"Até seria legal se tivesse, se fôssemos assim tão importantes", disse. "Mas nós entendemos as principais forças que regem o mundo e nada leva a crer que o posicionamento dos planetas possa influenciar as pessoas."